Reflexões sobre
A VETUSTA E QUASE ESQUECIDA
ARTE DE ENVELHECER
Fernando
Sabóia vieira
Conselhos que dou a mim mesmo, nesta
quadra estranha da vida.
1) Escolher minhas demências senis. Não supor que não as terei.
Melhor preferir algumas a ser vítima de quaisquer.
2) Evitar o ridículo de querer se manter eternamente jovem e o
patético de ser um velho covarde.
3) Manter a autocrítica, o senso do ridículo. Não pode haver nada
mais ridículo do que um velho ridículo que não se enxerga mais.
4) Evitar o modernismo e também o anacronismo. Viver na suspensão
do tempo. Esse é um dos privilégios da idade: não ter que ir nem ter que voltar
5) Ser cada vez mais sério: ninguém suporta – pelo menos eu não –
um velho debochado.
6) Falar cada vez menos. O silêncio fica bem nos mais velhos,
combina com as longas estradas percorridas.
7) Reconhecer os novos limites e saber que alguns serão
insuperáveis. “Olimpíadas” da terceira idade são a quintessência da degradação
humana.
8) Não contar histórias a quem não quer ouvi-las e, principalmente,
não contá-las várias vezes.
9) Ouvir as histórias dos outros, com cada vez maior atenção. Elas
levam a mundos alternativos e fantásticos, cheios de aventuras, dramas e
riquezas humanas.
10)
Tentar aprender sempre
algo novo, de preferência por puro prazer.
11)
Manter o máximo de
autonomia, mas aceitar ajuda. Quem não aceita ajuda acaba dando mais trabalho.
12)
Terminar o que já foi
começado, antes de iniciar projetos que não se poderão concluir.
13)
Conviver cada vez mais
com os mais jovens. Eles são janelas para os futuros que eu não verei.
14)
Evitar a futilidade e
a frivolidade. São afrontas ao dom precioso da vida e um desrespeito profundo a
si mesmo.
15)
Valorizar o tempo, não
ter pressa para o que for belo, significativo e eterno, sem se perguntar se é
“útil” ou “produtivo”.
16)
Manter uma razoável
quantidade de dúvidas na mente. Recusar as explicações “cabais”: elas encolhem
a alma.
17)
Nunca deixar de se
admirar com a vida, com o mundo, manter-se perplexo diante das coisas mais
cotidianas.
18)
Manter o olhar para
adiante, isto é, para a eternidade, embora a curva na estrada e a nuvem escura
no horizonte.
19)
Acertar as críticas e
admoestações, não obstante a arrogância dos jovens e a impaciência dos velhos.
Você está entre uma coisa e outra.
20)
Não desejar nem temer
a morte. “Sê bravo, sê forte, não fujas
da morte, que a morte há de vir” (GD).
21)
Muito cuidado com o
ceticismo. Aparência de sabedoria ele tem, mas “lado negro da força ele é” (MY).
22)
Aceitar as
incompletudes da vida para poder viver plenamente.
23)
Evitar conversar comigo
mesmo e com meus amigos invisíveis – ausentes, falecidos, fictícios – diante de
pessoas que não têm esse nível de transcendência espiritual.
24)
Não esperar das
pessoas o que elas não têm para dar, mesmo quando elas pensam que sim e o
prometem: “de onde menos se espera, daí é
que não saí nada mesmo” (BT).
25)
A sabedoria do tempo
é: eu antes sabia apenas superficialmente as coisas que hoje não sei
profundamente.
26)
Não tentar mudar a
ninguém exceto a mim mesmo.
27)
Não reclamar: as
coisas e as pessoas nunca se importaram e não começarão a se importar agora.
28)
Não falar alto. As
pessoas não estão ficando surdas, Elas não estão mesmo interessadas no que
tenho a dizer.
29)
Não ficar com raiva
quando tomam minha insistência por idiotia – talvez seja mesmo.
30)
Fazer de tudo para não
perder mais nenhum por do sol, lua cheia ou passagem de cometa.
Fsv/2012
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